15 maio, 2024

Followay FM1 Groundbreaking: português e com alma

 

Followay FM1 Groundbreaking

O tempo não tem abundado e estou em falta para com o João Dias, o criador da marca portuguesa Followay, que tão simpaticamente chegou até ao Relógios B3 e me disponibilizou durante algumas semanas uma unidade do seu FM1 Groundbreaking para análise.

Antes de falarmos do FM1, vale a pena falarmos primeiro da Followay. Esta não é a primeira nem será certamente a única marca "portuguesa". Mas creio que é a primeira marca portuguesa... sem aspas! A distinção é importante, porque nos tempos que correm, basicamente qualquer pessoa pode criar uma marca de relógios, registá-la em Portugal e dizer que tem uma "marca de relógios portuguesa"... ainda que, depois use movimentos japoneses (o que é aceitável) e mande fazer as caixas na China (o que já é menos aceitável).

Admito que não sou suficientemente conhecedor para garantir que assim é com todas as marcas que se apresentam ao mercado como sendo "portuguesas", mas posso afirmar que o contrário é verdade no caso da Followay: à exceção do movimento, o popular SII (Seiko) NH35A, tudo o resto é feito em Portugal.

João Dias, o jovem de 22 anos responsável pela Followay, explica que a paixão pelos relógios surgiu bem cedo na sua vida, quando a sua tia lhe ofereceu um Casio, tinha ele 7 anos. Assume uma "alma de artesão e de empresário" e, quando decidiu avançar para este projeto, fez questão que tudo (ou tanto quanto possível) fosse produzido em Portugal.

Um relógio diferente

Pode ou não gostar-se deste primeiro modelo da Followay, mas uma coisa é certa: nunca vimos algo parecido! O que mais chama a atenção é efetivamente a caixa, um monobloco em aço maquinado, acabado e polido manualmente e no qual há uma integração total das asas que prendem a bracelete.

As dimensões também não são usuais. Não pelos 40 mm de diâmetro, mas pelas proporções entre o mostrador e a luneta. Outra particularidade é o facto de o fundo da caixa ser perfeitamente plano – incluindo as asas. Este foi um aspeto que me preocupou ao ver as fotos, porque achei que não ia ser muito confortável em termos de utilização diária. Além disso, as asas têm um espaçamento pouco usual para um relógio destas dimensões, de apenas 16mm, o que me fez ainda mais soar os alarmes.

Contudo, a verdade é que nada disto tem impacto na utilização do relógio no dia a dia, tal como confirmei durante o tempo que convivi com ele. Pelo contrário, achei a utilização diária do relógio bastante confortável!

Na prática, é outra particularidade do relógio que mais senti que poderá ter impacto no conforto de utilização (embora não no meu caso): a coroa. Uma vez mais, é uma coroa que foi desenhada pelo João Dias especialmente para este relógio, mas acho que é demasiado grande (não em diâmetro, mas em comprimento) para o relógio. Confrontei o criador do FM1 como este detalhe mas ele confessou-me que era uma das coisas que mais gostava no relógio, pelo que não será certamente algo que irá mudar.

Especificações

A Followay gosta mesmo de fazer as coisas à sua maneira e outra particularidade que não se vê normalmente noutros projetos é o mostrador. João Dias escolheu o alumínio e, para a cor (cinza escuro) deu-lhe um tratamento anodizado; a aplicação dos índices é feita de forma a deixar surgir o alumínio brilhante por baixo. O resultado é uma textura interessante e que seria difícil de obter de outra forma.

O vidro, totalmente plano, é de safira. E, como já foi referido acima, a bracelete é de pele, com uma fivela convencional.

As especificações podem ser consultadas no website da marca, aqui. Confirmei o diâmetro da caixa e a largura da bracelete indicadas (40mm / 16mm) mas registei também outras: espessura de 12,4mm e peso de 86,76 gramas, bracelete incluída. A caixa tem uma resistência à água de 50 m.

Conclusão

Pessoalmente, o resultado (estético) do Followay não é algo que me agrade. Há detalhes que sinto que podiam (e, uma vez que estão previstas apenas 200 unidades do relógio, as quais serão produzidas à medida das encomendas, ainda podem) ser alteradas. O aspeto mais flagrante é a posição e dimensões do logótipo da marca: penso que podia ser menor e estar colocado às 12h00 e não às 6h00, onde já encontramos a janela da data. 

Contudo, tal não desvirtua o resultado final. Consigo entender as virtudes do projeto e creio que ele tem lugar no mercado. A originalidade deste modelo e o facto de quase tudo ser produzido em Portugal – especialmente a caixa – tem um apelo que muitos acharão irresistível.

Resta o preço. Tudo isto custa dinheiro, claro. E é aqui que julgo que o Followay FM1 Groundbreaking tropeça um pouco. O relógio custa 576€. Mas eu sei que o FM1 vale o que custa, porque esse é o preço da manufatura em pequena escala e em Portugal, mas também o preço de sabermos que temos no pulso algo único e original.
 
Podia ser mais barato? Podia, se fosse todo feito na China. Mas, nesse caso, tínhamos que voltar a colocar as aspas nesta marca 100% portuguesa.
 
O Followay FM1 Groundbreaking está á venda em Lisboa, na ourivesaria Camanga, e em Gaia, na Watch Garage.

Galeria

Followay FM1 Groundbreaking
Followay FM1 Groundbreaking

Followay FM1 Groundbreaking

Followay FM1 Groundbreaking



Followay FM1 Groundbreaking

Followay FM1 Groundbreaking
Followay FM1 Groundbreaking


07 abril, 2024

MAEN Brooklin 36: quando um Panda não é um Panda

MAEN Brooklin 36

Esta é a primeira vez que vos falo da MAEN, uma jovem marca sueca fundada por dois neerlandeses. Mas a julgar pela criações que podemos encontrar no website da marca, julgo que vale bem a pena descobrirmos um pouco mais a sua gama, a começar por este Brooklin 36.

Trata-se de um interessante dress watch de dimensões modestas (36mm de diâmetro, como seu nome sugere), mas excelentes proporções, cortesia de um mostrador criado em torno do movimento Miyota 9122, um high-beat (4 Hz) automático com função de triplo calendário: dia do mês na janela às 6h00, dia da semana no sub-mostrador às 9h00 e mês às 3h00.

O resultado é mostrador "panda" mas sem a complicação de cronógrafo, como assumiríamos à partida; ou seja, um panda que não é um panda... mas acaba por ser um panda. :-)

A caixa, em aço 316L e com resistência à água de 5 atmosferas, é relativamente fina, com apenas 11,1mm de espessura, que cresce ligeiramente até aos 12,6mm se incluirmos o vidro de safira abobadado com revestimento antirreflexo. O conjunto é completado por uma bracelete de 5 links também em aço.

Gosto imenso do resultado final, e a marca tem diversas variantes deste modelo, todas ao mesmo preço, com diferentes cores e contrastes.

A gama Brooklin 36 encontra-se em fase de pré-venda, com entregas previstas para maio deste ano. A aquisição só pode ser feita diretamente a partir do website do fabricante. O preço, um pouco puxado para uma marca sem grande história e com um movimento que, apesar de excelente, não é suíço, é de 849€.


 

08 janeiro, 2024

Bulova Precisionist JET STAR: o charme dos anos 70

 


OK, OK... "Charme" e "Anos 70" na mesma frase é um bocado puxado. Mas desde o final de 2022 que as principais marcas (re)descobriram que vasculhar entre o seu catálogo de modelos criados na era das calças à boca de sino e do disco sound para encontrar inspiração era mesmo boa ideia.

E, no que diz respeito a relógios, admito que é bem possível que tenham razão. Desde o Tissot PRX às reedições da Timex, os Anos 70 vieram para ficar... ainda que as modas sejam passageiras e que esta tendência possa não durar muito mais.

Contudo, se tudo isto nos trouxer mais modelos como este Bulova Jet Star, então acho que não há problema! Este dress watch clássico tem uma caixa original e bracelete em aço integrada que é reminiscente de um relógio homónimo dos anos 70. Existem três variantes no website português da Bulova (incluindo alguns, mais baratos, com bracelete em pele), mas este, com mostrador vermelho, é o que mais me agrada.

Uma das características mais interessantes deste modelo é a utilização do mecanismo de quarto de alta frequência (e elevada precisão) da Bulova, que funciona a 262 kHz e que permite um movimento suave do ponteiro dos segundos  mais suave até do que um mecânico high beat  usado nos modelos Precisionist da marca, a par de uma versão cronógrafo, que é a que conhecemos já do Lunar Pilot.

A caixa de 40mm tem uma resistência à água de apenas 5 atmosferas, mas acho que é algo que podemos perdoar num dress watch. A execução inclui vidro de safira, o que torna o preço de referência de 429€ mais fácil de engolir. Ainda mais fácil de engolir é o facto de que este é um relógio que pode ser encontrado na Amazon por bastante menos.

02 janeiro, 2024

Seiko 5 Sports Field Sports GMT: 2024 em grande

 



O Ano Novo começa bem, com o lançamento de uma versão GMT do Seiko 5 Sports Field! Este relógio tem a referência SSK023K1, e acrescenta a complicação de segundo fuso horário ao já excelente SRPG27, com um resultado que é (para mim) claramente superior ao original.

Face ao modelo de partida, este novo GMT da Seiko retém o excelente desenho de elevada legibilidade, com numerais arábicos em todas as posições horárias, exceto às 15h00, incluindo a escala militar de 24 horas.

As principais alterações estéticas, mas também funcionais, são a troca da complicação de dia/data pela de data (que é a única incluída no movimento NH34/4R34 aqui usado); esta alteração tem também como resultado a manutenção da escala de 24 completa, com "15" às 3 horas. Temos depois a adição de uma luneta com escala de 24 horas e ponteiros que mantêm a estética do field original mas, claro, com um quarto ponteiro para o segundo fuso horário.

As proporções são também (quase) as mesmas do modelo original, com caixa de exatamente 39,4mm de diâmetro. No entanto, a distância entre as asas ("lugs") superiores e inferiores foi ligeiramente reduzida em 2 mm (de 48,1 para 47,9mm) ao mesmo tempo que a espessura foi aumentada em 4mm, devido à necessidade de acomodar o novo movimento, sendo agora de 13,6mm. 

A resistência à água até 100m mantém-se, o que me parece razoável para um field watch

O que não se mantém é o preço, infelizmente... O PVP de referência para o SRPG27 é de 330€, mas sobe para uns substanciais 490€ no caso deste novo SSK023K1. Claro que vamos poder encontrar este relógio mais barato na Amazon e noutros sites online, mas só passados uns meses após o seu lançamento, agendado para este mês de janeiro. 

Neste momento, o SRPG27 pode ser encontrado na Amazon.es por cerca de menos 90€ do preço de referência! Imagino que o mesmo venha a acontecer com o novo modelo, pois foi exatamente o que sucedeu quando a Seiko lançou, em 2022, o SSK00x GMT com um PVP de referência de 520€, mas que hoje pode ser adquirido por cerca de 100€ menos.

A minha previsão é que, no final deste ano, o possamos comprar por um preço da ordem dos 400€ ou menos. Pessoalmente, não sei se resistirei tanto tempo à tentação... :-)

28 dezembro, 2023

Relógios da CP: Uma oportunidade perdida




Tenho um relógio de parede da Mondaine, daqueles Stop2Go, em que o ponteiro dos segundos para na posição das 12 horas durante 2 segundos e, depois, o ponteiro dos minutos avança um minuto. Adoro o relógio – só acho que podia ser um bocadinho maior, mas enfim... – e hei-de também ter uma versão de pulso, que foi relançado recentemente.

Entretanto, apareceu-me hoje, via Facebook, esta foto, de um relógio de uma estação de comboios portuguesa, recentemente reparado.

E pus-me a pensar: tal como no caso do icónico mostrador que a Mondaine licenciou*, este relógio português é igualmente único. Desconheço as suas origens, mas a verdade é que adorava que ele existisse não apenas em versões de parede, como em relógios de pulso.

Numa CP que historicamente é uma empresa que dá prejuízo (o que faz algum sentido, visto tratar-se de um serviço público...), o facto de não haver ninguém com cabecinha para rentabilizar este ativo, é algo que me deixa perplexo. 

Como duvido imenso que o desenho deste mostrador seja protegido por direitos de autor (como é o caso suíço, que até obrigou a Apple a pagar mais de 20 milhões de dólares para a sua utilização no iOS), arriscamo-nos um destes dias a ver alguém – não necessariamente Português – a faturar à conta disto. E, depois, será tarde demais.

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* Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o desenho usado pela Mondaine não foi uma criação da empresa. O mostrador original remonta a 1944 (!), tendo sido desenhado por Hans Hilfiker. A Mondaine licenciou este design à SBB CFF FFS em 1986, para utilização exclusiva.