25 de setembro de 2021

Timex MK1 Mechanical: um field watch mecânico acessível

 


O field watch foi definido há décadas pela Hamilton, quando ainda era uma empresa norte-americana (hoje é suíça e faz parte do Grupo Swatch), através do antecessor do que é hoje o Khaki Field Mechanical, usado pela NATO nos anos 60. O DNA consiste num mostrador com dupla escala (12/24 horas) com numerais árabes e de elevada legibilidade, um movimento mecânico de carga manual e uma caixa em aço de dimensões não superiores a 38mm.

O acesso ao já referido clássico Hamilton faz-se desembolsando uma soma próxima dos 500€ (dependendo das versões, bracelete, acabamentos, etc.). Existem máquinas mais acessíveis, mas não é fácil encontrá-las baratas com um movimento mecânico de carga manual, características e desenho fiéis ao original.

Isto é, até agora. Apresento-vos o Timex MK1 Mechanical. À primeira vista, é fácil confundi-lo com o Hamilton que lhe serviu de inspiração. E, ao contrário do que sucede tantas vezes com a Timex, o que temos aqui até é uma máquina decente. Ou seja, nada de caixa em latão (esta é em aço, resistente à água até 50m) ou de movimento de quartzo: à semelhança da referência original, a marca usou aqui um movimento mecânico de carga manual! R-E-S-P-E-C-T!

O desenho é, também ele, puro field watch, onde não falta a dupla escala horária 12/24 horas para melhor identificação da chamada "hora militar", que consiste em designar as horas numa nomenclatura entre as 00h e as 23h, em vez de apenas 1-meio-dia (noite/manhã) e 1-meia-noite (tarde/noite).

Uma vez que se trata de um Timex, podemos contar com um preço acessível, e assim é. O preço de referência, no site da Timex nos EUA, é de 185 dólares, o que significa que, quando chegar por cá (ainda não o vi nas Amazon europeias) não deverá vender-se por mais de 150€.

Claro que há compromissos. A diferença de preço para um Hamilton não tem só a ver com a marca... A primeira coisa que devemos ter em consideração é a caixa, que neste caso é de apenas 36mm e não de 38mm como no caso da nossa referência. Depois, a bracelete é têxtil e, a fazer fé no que é habitual na Timex, a qualidade não deverá ser nada de especial; no caso do Hamilton, há também uma bracelete têxtil, mas é uma verdadeira NATO, ao contrário desta.

E, claro, temos depois o movimento. Um pesquisa rápida pela Web permite identificar o movimento usado pela Timex como um Seagull de origem chinesa, quando a Hamilton utiliza o moderno e fiável H50, uma versão do ETA 2801-2 com uma autonomia de 80 horas.

No entanto, por bem menos de 200€, não me vou queixar. O que temos aqui é um belo field watch a um preço justo. Agora, o que era mesmo bom, era uma versão de 38mm...

22 de agosto de 2021

RZE Valour Cruzaderwhite: um cronógrafo apetecível

 

A maioria dos entusiastas de relojoaria (eu incluído) é um bocadinho snob no que diz respeito aos movimentos. O mais certo é olharmos de lado para qualquer coisa que não tenha um movimento mecânico lá dentro. :-) Mas não tem que ser necessariamente assim. Diria mais, não deve ser assim.

Os relógios com movimento de quartzo oferecem duas coisas que dificilmente encontramos nos seus congéneres mecânicos. A saber, precisão e fiabilidade (fiabilidade, no sentido de não necessitarem de manutenção, além da mudança da pilha -- e, no caso dos quartzo alimentados pela luz, nem isso!). 

Neste momento, a minha pequena coleção inclui dois cronógrafos, um Tissot com movimento de quartzo; e um Junkers com um movimento automático ETA 7750. Ambos me dão grande prazer sempre que os coloco no pulso, mas tenho de admitir que gosto mais do Junkers. Acontece contudo que eu, como, de resto a maioria dos que usam cronógrafos, nunca (ou quase nunca) uso a complicação de cronógrafo. Mas, se a utilizasse de forma regular, iria obter resultados mais precisos de registo de tempos intermédios com o Tissot. Alguém acha que os equipamentos de cronometragem dos Jogos Olímpicos usam relógios mecânicos?!

Os movimentos cronógrafos Seiko da série VK são muitas vezes designados "movimentos híbridos" ou "mecha-quartz", porque a parte do cronógrafo utiliza diversos elementos mecânicos e, além disso, o ponteiro dos segundos tem um movimento relativamente suave, em vez de avançar a cada segundo. A vantagem consiste na conjugação de operação do cronógrafo com um feel mecânico, mas com a precisão que só o quartzo consegue oferecer. Não será o melhor dos dois mundos, mas anda lá perto!

E é precisamente a variante VK64 que encontramos aqui neste bonito e original cronógrafo da micro-marca RZE. Trata-se da variante com mostrador branco e sub-mostradores pretos ("panda") da gama Valour, que resulta num relógio particularmente bem conseguido e com um desenho de alguma originalidade... pelos menos tanto quanto é possível seguindo de perto as regras de desenho de um cronógrafo tradicional.

As especificações são uma conjugação de tudo o que aqui costumo reivindicar e que considero basicamente perfeitas: caixa em titânio com 42mm de diâmetro, resistência à água até 200 metros, vidro de safira e um mostrador muito equilibrado e bem desenhado, com os dois sub-mostradores às 3h00 e 9h00 e uma janela de data ás 6h00. 

E, por falar em bem desenhado, chamo a atenção para a maior originalidade deste projeto, que é a forma discreta e muito bem integrada como foram implementados os poussoirs do cronógrafo. Outro detalhe elegante é também a forma seamless como as asas parecem fazer parte da caixa e não um mero acrescento. O resultado é um relógio que é tão bonito com pulseira em borracha, como com bracelete em titânio -- muito embora esta última seja mais do meu agrado.

O mostrador oferece grande visibilidade também no escuro, com aplicação de superluminova nos índices e nos ponteiros principais.

É possível arranjar cronógrafos baseados no Seiko VK64 a preço inferior ao deste RZE, mas não encontrei nenhum tão bonito nem tão equilibrado em termos de características e desenho. O preço, a partir do website europeu da marca, e já com portes incluídos, é de 369€ para a variante com pulseira em borracha e de 459€ para a que inclui esta mas também uma bracelete em titânio. 

Estão também disponíveis variantes com mostrador em "salmão" e uma outra com caixa revestida a PVD negro.

28 de julho de 2021

Meccaniche Veneneziane Redentore: um clássico italiano

 

Maccaniche Veneneziane Redentore


Falei pela primeira vez na Meccaniche Veneziane em 2017, num post sobre o modelo Redentore Ardesia. Muitos microbrands aparecem e desaparecem com a mesma rapidez, mas a Meccaniche Veneziane parece ter vindo para ficar, uma vez que o seu site mostra uma gama crescente de modelos, entre eles a geração 2021 do referido Redentore.

Nunca tive qualquer um destes modelos na mão, mas tudo indica que o nível de execução aparente não só se manteve, como foi melhorado. Estes são dress watches de dimensões corretas (40mm) com duplo acabamento acetinado/escovado e braceletes em aço.

Existem várias variantes do Redentore. A que vos trago hoje tem a referência 1301008J, a qual conjuga um mostrador preto com ponteiros de esmalte azul, de belo efeito.

Além de alguns detalhes, que se notam sobretudo nos índices aplicados, há uma grande diferença entre estes novos modelos e o Redentore original: o movimento, que era um Miyota 8210A, é agora um SII (Seiko) NH35A, ao qual a marca dá a designação interna de MV145. A caixa tem resistência à água de 100 metros e o vidro de safira que protege o mostrador recebeu tratamento antirreflexo. 

O fundo é aparafusado, uma técnica que não garante tanta resistência à água (é por isso que os relógios de mergulho normalmente têm fundos roscados) mas, por outro lado, permitem um alinhamento preciso de qualquer elemento decorativo. Que, neste caso, é a figura da Igreja Il Redentore (que dá o nome ao relógio) e que foi construída no século XVI, em Veneza.

Resta o preço. Os 455€ pedidos (compra a partir do site da marca) não são propriamente uma pechincha, especialmente dado o movimento usado. Contudo, dado o aparentemente elevado nível da execução e acabamento, acaba por não ser um valor exagerado.

21 de julho de 2021

Orient Kamasu: a busca pelo melhor diver terminou

 

Orient Kamasu

Ao longo dos anos, habituámo-nos a nomes como Mako, Ray ou Kamasu da extensa gama da Orient. Tanto quanto sei, estes não são nomes dados oficialmente pela marca japonesa (desde há algumas décadas adquirida pela Seiko, mas que mantém a sua identidade e independência) mas, ao que parece, pela sua subsidiária dos EUA.

É assim que encontramos a referência que hoje vos trago sob o nome Kamasu nos Estados Unidos mas, simplesmente com a referência oficial RA-AA0004E no site japonês. Estamos, contudo, na presença do mesmo relógio: um modelo que conseguiu receber da comunidade de entusiastas da relojoaria uma reação quase unânime, sendo muitos os que garantem que este é o melhor relógio de mergulho do mundo na gama de preços que se insere.

E que preço é esse, perguntarão os meus fiéis leitores, habituados a relógios B3? O valor de referência no site dos EUA é de 460 dólares mas, como vem sendo habitual no que diz respeito aos Orient, o preço que encontramos online é muito, muito inferior. Na Amazon Espanha está neste momento a ser vendido por apenas 230 euros (!), já com portes de envio para Portugal.

Este Kamasu, que também surge por vezes referenciado como "Mako III" (embora tal não faça sentido, porque uma das coisas que distingue os Mako de outros modelos de mergulho da Orient é a utilização de um misto de índices e numerais no mostrador, enquanto aqui temos apenas índices) tem proporções muito boas, a partir de uma caixa em aço com 21,8mm de diâmetro e 200 metros de resistência à água.

O movimento usado é o Orient F6922 automático, com paragem de segundos (hacking) e possibilidade de corda manual. As complicações de dia e data, tradicionais nestes Orient, são aqui retidas, e os ponteiros são um pouco diferentes do habitual, sobretudo no que diz respeito ao ponteiro das hora, em forma de seta. Esta variante, em verde, é a que mais me agrada (procurem no YouTube: o verde é ainda mais bonito do que parece nas fotos), mas existem ainda outras com mostrador em azul, preto e bordeaux.

Tudo isto é muito bonito, poderão interrogar-se, mas não é muito diferente de outras gerações de relógios do mesmo tipo da Orient. Certo, é verdade. Mas o detalhe que faz a diferença é que este tem, finalmente!, vidro de safira. Até agora, todos modelos destes género da Orient (e até da Seiko...), se limitavam ao simples vidro mineral.

O facto de a Orient ter decidido aqui criar um modelo, na mesma gama de preços, mas com vidro de safira, torna este conjunto verdadeiramente irresistível, com uma proposta de valor que deixa muitos microbrands em apuros.



14 de julho de 2021

Vostok Komandirskie 020/650: é barato... mas valerá a pena?

 

Vostok Komandirskie


Ando há uns tempos para falar da Vostok, relojoeira russa fundada em 1942 Quando comecei este blog, há quase 10 anos, a Vostok tinha fechado há pouco tempo (faliu em 2010) e apenas a Vostok Europe, que é uma empresa totalmente diferente, embora com uma história que se cruza com a da Vostok, subsistia.

Entretanto, muito mudou, e a Vostok voltou a operar, produzindo não apenas movimentos mas também relógios completos, que têm em comum sobretudo duas coisas: desenhos clássicos e preços muito baixos.

A Vostok é das poucas marcas que se pode vangloriar de produzir os seus próprios movimentos mecânicos, ainda que estes sejam algo rústicos e com acabamentos tipicamente muito básicos. O modelo que vos trago hoje pertence à lendária família Komandirskie da marca e é um relógio de mergulho automático que custa menos de 150 euros.

Há vários vídeos no YouTube que demonstram que estes são relógios com um nível de acabamento muito básico mas, pelo menos, são originais, mesmo que este modelo em particular nos dê uma "vibes" de Fifty Fathoms, especialmente no bisel unidirecional.  

A caixa, com 41mm de diâmetro, oferece a resistência à água de 200 metros que esperamos de um relógio de mergulho digno desse nome. O desenho agrada-me imenso, e o mesmo é verdade relativamente ao mostrador azul (existe uma variante, ao mesmo preço, com mostrador verde).

Aparentemente, índices, numerais e ponteiros são luminescentes, embora não tenha encontrado nenhuma foto do relógio no escuro que me permita confirmar isso. Mas, pelo menos, o mostrador é bem desenhado e com um equilíbrio que me agrada bastante: numerais nas posições horárias pares, à exceção das 12h00, com janela de data às 3h00. Gosto também bastante do formato dos ponteiros, que por vezes são um deal breaker para mim. 

O movimento usado é um Vostok automático referência 2415.01 com apenas 31 horas de reserva de marcha, o qual contribui para o baixo preço do conjunto. Outra coisa que ajuda a manter o preço baixo é o "vidro" que protege o mostrador e que, neste caso concreto, é na realidade acrílico. Como já comentei noutros posts, o material acrílico é ótimo em termos de resistência à quebra (daí ser ser usado no Omega Speedmaster que foi à Lua), mas é terrível em termos de se riscar muito facilmente. Pode ser polido, é verdade, mas um risco mais profundo nunca irá desaparecer.

O que ainda não consegui descobrir é se existe uma loja oficial da marca. Uma que surge frequentemente nas buscas via Google é a Meranom, mas os relógios são enviados a partir da Rússia, pelo que o modelo que voz trago hoje é vendido via Amazon Espanha, que pelo menos nos dá a garantia de que podemos reaver o nosso dinheiro caso alguma coisa corra mal.

Aqui, o relógio custa 132 euros, aos que o vendedor acrescenta 10 euros para envio para Portugal. É barato, sim. E eu mesmo ando a pensar se não o irei comprar. Mas, pelo mesmo preço, podemos ter um Orient. É menos original, é verdade, mas o nível de execução e qualidade do movimento são claramente superiores.