01 janeiro, 2020

Steinhart Nav.B-Chrono 47 Baumuster B Grey Edition


Não é frequente mas, de vez em quando, surge um relógio que me faz parar e olhar com atenção – e, depois, ficar a pensar que o próximo passo seria tê-lo no meu pulso! Este novo modelo da marca alemã Steinhart, de que tanto tenho falado desde os primeiros momentos deste blog, é um destes relógios.

O Steinhart Nav.B-Chrono 47 Baumuster B Grey Edition começa por estar no topo do que considero ser "B3" (a regras deste blog definem os 1000€ como teto máximo), uma vez que custa uns substanciais 990€. No entanto, justifica este valor pelo facto de ser baseado no (já de si caro) movimento cronógrafo ETA Valjoux 7750, aqui numa execução premium e ainda melhorada com o tradicional acabamento da marca, nomeadamente um rotor dourado com o logótipo da Steinhart.

Mas o que realmente distingue esta máquina do enorme mar de cronógrafos baseados no Valjoux 7750 que podemos encontrar por aí é a originalidade do desenho e a forma como o mecanismo foi implementado.

Se olharem com atenção, o que mais sobressai é o mostrador tipo "B", em que os principais numerais da escala são os dos minutos/segundos – aqui graduados de 5 a 55 – e que é uma implementação típica nos relógios ditos de "navegador" (e não de "piloto", como muitas vezes lhes chamamos) que tiveram origem na Segunda Guerra Mundial e eram usados pelas tripulações dos bombardeiros alemães.

De forma a ir ao encontro do desenho original mas sem desperdiçar as complicações oferecidas pelo 7750, a Steinhart tomou algumas decisões interessantes, nomeadamente usar apenas os sub-mostradores correspondentes à funcionalidade de cronógrafo (às 6 e 12 horas) e dispensar o mostrador de pequenos segundos que esta máquina costuma oferecer às 9 horas.

Outra simplificação passa pela utilização apenas do disco do dia do mês (aqui, às 6 horas), quando este é um movimento que inclui também um disco de dia da semana, ambos tradicionalmente visíveis na posição das 3 horas.

Mas a originalidade do desenho da Steinhart não se fica por aqui. Seguindo as diretivas dos desenhos de mostrador "Tipo B", o relógio inclui uma escala concêntrica para as horas, cuja leitura é facilitada pelo ponteiro respetivo, encurtado de forma a apontar corretamente para as posições horárias. O desenho inclui ainda escala taquimétrica inscrita internamente, em torno do mostrador.

A caixa é pouco grande para o meu pulso (47mm), mas o resultado é francamente bom, com uma execução de elevado nível que inclui vidro de safira e uma caixa em aço de cor cinza particularmente bonita. Nota final para a coroa com cortes diagonais de belo efeito e poussoir de arranque do cronógrafo em vermelho.

Edit 1/12/2020: Infelizmente, este modelo já não se encontra disponível

25 dezembro, 2019

Preço vs. Valor: o que é afinal “bom, bonito e barato”?

IWC vs Steinhart
No mundo da alta fidelidade utiliza-se frequentemente um termo para designar um fenómeno que pode igualmente ser usado noutros mundos, como o dos automóveis ou o da relojoaria: “The Law of the Diminshing Returns”.

A ideia (aplicada neste contexto) é simples: a partir de um certo ponto, o custo de acrescentar apenas valor incremental a um produto, encarece esse mesmo produto de forma exponencial.

Na alta fidelidade isso significa que podemos obter um bom gira-discos por 500 euros mas, se quisermos ir mais além na escala da qualidade, teremos de gastar várias vezes mais esse valor. Ou seja, se considerarmos que 500 euros compra um equipamento capaz de uma qualidade de reprodução de 75% do total possível, teremos de gastar muito (mas mesmo muito) mais para conseguir os restantes 25% – é fácil gastar algumas dezenas, ou até centenas, de milhar de euros num gira-discos…

Para algumas pessoas, o custo desses restantes 25% compensam os resultados. Para outras, o contrário não podia ser mais verdadeiro. O mesmo raciocínio pode ser encontrado no mundo automóvel. Um Bugatti Veyron de 1,5 milhões de euros vale 10 vezes mais do que um Nissan GT-R de 150.000 euros? E este vale 10 vezes mais do que um Nissan Micra de 15.000 euros? Uma vez mais, depende de quem responde à pergunta.

O que nos leva ao mundo dos relógios. Tenho amigos com IWC e Breitling de milhares de euros no pulso, e outros que acham que os menos de 300 euros que paguei por um Seiko automático é várias vezes superior ao que consideram ser razoável dar por um relógio – e até mesmo os que dizem que não usam relógios porque o telemóvel serve perfeitamente.

Claro que há inúmeros factores que encarecem um relógio. Se a caixa é de platina e diamantes, o movimento até pode ser de quartzo, que o resultado nunca será barato. E numa caixa de aço, um movimento mecânico que demora um ano a montar por um artífice especializado terá sempre de custar muito dinheiro.

Para mim, já é mais difícil (mas não impossível, reconheço) justificar valor quando se usam movimentos idênticos (mas não iguais) em relógios com preços díspares, como o exemplo na foto que ilustra este artigo: em ambos os casos é usado um Valjoux 7750 (em rigor, no caso do IWC é o Calibre 79350, mas é muito baseado no ETA 7750). Edit: a referência da IWC na imagem já não existe e o Steinhart só está agora disponível com caixa em PVD preto e custa 900€  mas vocês perceberam a ideia, certo?

Tudo isto começou por causa de um interessante artigo que li aqui e que discute precisamente o valor e o preço dos relógios. A conclusão é que esses são conceitos que variam consoante as pessoas, algo com que naturalmente concordo. O que para mim é “bom, bonito e barato” para outros é ridiculamente caro ou, pelo contrário, demasiado barato para ser levado a sério.

E para si? O que é “B3”?

(este artigo foi originalmente publicado neste blog em 2 de fevereiro de 2013 e foi reeditado com links novos e mais informação sobre o calibre IWC 79350).

23 dezembro, 2019

Casio Edifice EFS-S550DB-1AVUEF

Já há uns tempos que não vos trazia um modelo da gama Edifice, da Casio. Este é modelo EFS-S550DB-1AVUEF, um cronógrafo de quartzo de excelente execução e com um PVP de referência de apenas 199 euros. E quando digo "excelente execução" não é uma hipérbole: esta é a primeira vez que me lembro de ver um Casio com vidro de safira!

Em termos estéticos, este relógio fica algures entre um cronógrafo e um relógio de mergulho em quanto a mim, a única "falha" (entre aspas porque, para outros, poderá ser uma vantagens) é o tamanho algo excessivo da caixa, que tem 50mm de diâmetro e resistência à água até 10 atmosferas (100 metros).

As complicações deste movimento de quartzo incluem cronógrafo com medição até 30 minutos, data com janela na posição das 4 horas, mostrador de 24 horas na posição das 3 horas e indicador de bateria fraca (o ponteiro dos segundos move-se em saltos de 2 segundos). Um bisel rotativo unidirecional completa o conjunto.

O movimento é alimentado pela luz e o acumulador interno é recarregado em apenas 6 minutos pela luz solar intensa (50.000 lux) ou em 6 horas com luz de interior fluorescente (500 lux).

Como disse no início, este é um relógio com um preço de referência de 199€, o que me parece francamente bom para acabamento e o conjunto de funcionalidades oferecidas. Melhor ainda, encontrei-o à venda na Amazon Espanha por 166€ (+ portes).


13 dezembro, 2019

Zelos Swordfish V2 Midnight Blue


A Zelos é uma jovem marca de relógios baseada em Singapura, que me chegou através de uma dica de um leitor deste blog.

Esta microbrand possui um número surpreendente de coleções mas, dado tratarem-se de edições limitadas a poucas unidades por cada variante, a maioria do que encontramos no site da marca encontra-se esgotado.

No entanto, este modelo que vos trago hoje, o Swordfish V2, está disponível e é um belíssimo relógio de mergulho, bem desenhado e (aparentemente) melhor executado, com caixa de 42 mm de diâmetro resistente até 300 metros.

Esta variante em particular chama-se Midnight Blue, numa referência à cor azul do mostrador e da luneta rotativa, e tem um preço de 349 dólares + portes (enviam para Portugal). A marca decidiu utilizar aqui o popular movimento mecânico automático NII (Seiko) NH35A mas implementou-o dispensando a habitual complicação de data.

O resultado é um relógio particularmente elegante – em especial para um modelo de mergulho – e com uma aplicação generosa de Superluminova nos ponteiros e índices do mostrador e também nos numerais e índices da luneta (unidirecional de 120 cliques). A execução inclui bracelete em aço e vidro de safira.



18 novembro, 2019

Meia Lua Boreal Moonrise




Falei aqui do Meia Lua pela primeira vez no final de 2017 e, cerca de um ano depois, o responsável pela marca fez-me chegar um modelo para testes. Pedi-lhe o Boreal Moonrise porque me parece que, de todas as variantes, este é o que possui o mostrador mais bonito e original.

Acontece que já tive o relógio comigo desde há quase um ano, já o devolvi e... nunca mais tive oportunidade de escrever o teste, com as minhas impressões em primeira mão.

Esta semana voltei a encontrar o Gonçalo, fundador e CEO da empresa, que me perguntou pela review. E pronto, aqui estamos: prometi-lhe que a faria nos próximos dias e, desta vez, não quero falhar, até porque fiquei a saber (eis uma notícia em primeira mão para os leitores do blogue!) que está prestes a ser lançado um novo modelo, o qual chegará no início de 2020.

Isto são, de resto, excelentes notícias, porque provam que o projeto da Meia Lua chegou a bom porto e correu suficientemente bem para prosseguir com mais modelos. Mas vamos então às minhas impressões sobre este relógio.

Como sabem, a maior parte do que escrevo neste blogue é baseado em informação disponível online (a maioria) ou em press-releases que as marcas me enviam (menos frequente, mas acontece). Mas a realidade é que, tanto quanto possível, não devemos comprar um relógio sem o vermos primeiro "ao vivo" e, de preferência, depois de o colocarmos no pulso.

Há coisas que uma foto e uma lista de especificações não são capazes de transmitir. A qualidade de construção, por exemplo, é algo intangível e que só ao pegarmos no objeto somos capazes de sentir. Dizer que uma bracelete é de pele ou de aço é relevante; mas "há pele e pele", como também "há aço e aço" e nada substitui o contacto físico com o relógio.

Isto é relevante porque tem a ver com a experiência de pegar num Meia Lua. É verdade que o relógio parece bom, especialmente para preço pedido, mas o verdadeiro teste é pegar nele e sentir a sua eventual qualidade. Ora, o que mais impressiona no Meia Lua é exatamente a sua qualidade real. E que é tanto mais impressionante quanto se trata do primeiro modelo de uma empresa jovem e sem qualquer tradição relojoeira.

Este é o maior elogio que posso fazer ao Meia Lua: é um produto acabado, sem qualquer vislumbre de amadorismo ou, pior, de atalhos seguidos para poupar dinheiro. Aliás, o contrário é verdade: os pormenores são impressionantes, desde a coroa personalizada com uma meia lua, o cuidado posto no desenho do mostrador, o material luminescente aplicado aos índices e ponteiros, o fundo em vidro para observação do movimento, a caixa com resistência até 10 atmosferas, a bracelete com mola de libertação rápida, o acabamento polido/escovado da caixa em aço...

O relógio não possui qualquer deal breaker para mim. Isto é, ao preço que é pedido, comprá-lo-ia sem hesitação; afinal, estamos na presença de um relógio automático como movimento japonês (de origem Citizen/Miyota), com vidro de safira e por menos de 370€.

A cor verde, nesta variante, é muito bonita e o mostrador (a "cara" do relógio) é extremamente bem conseguido. O desenho do mostrador é, em parte, determinado pelo movimento escolhido, que neste caso é o Miyota 8217. Trata-se de um movimento automático da gama Standard da marca japonesa, que oferece como complicações adicionais o sub-mostrador de 24 horas às 9 horas e uma janela de data que a Meia Lua decidiu aqui abrir na posição das 4h30.

A escala horária usa um misto de índices e numerais nas principais posições e o mostrador possui ainda uma escala secundária de minutos/segundos, graduada de 0 a 55. Relativamente ao resto das opções estéticas, gostaria que o triângulo às 12h00 fosse desenhado com a ponta para cima e não para baixo (algo que, de resto, muitas marcas consagradas também fazem nos seus relógios inspirados pela aviação). A razão é simples: os relógios de aviação devem ter o triângulo para cima e os de mergulho, o triângulo para baixo, pelas razões óbvias!

Outro detalhe é a menção da frequência do movimento na posição das 6 horas, que me parece estar a mais, mas aqui já sou eu a embirrar com detalhes a que, provavelmente, ninguém mais liga.

Este relógio está também disponível numa variante interessante, especialmente bonita em conjugação com o mostrador verde, com caixa em aço de cor bronze/dourada.

Em conclusão: o Meia Lua Boreal Moorise vale tudo o que a Meia Lua pede por ele e, na realidade, não me chocaria que pedisse mais (uns 399€ parecer-me-iam um valor perfeitamente razoável). Sabendo do sucesso deste primeiro modelo e já tendo conhecimento sobre o novo que irá ser lançado em breve, não tenho dúvidas de que a marca está lançada e que tem à sua frente uma longa e promissora história.






06 outubro, 2019

Relógios do Quotidiano no Grande Prémio de Relojoaria 2019


O Grande Prémio de Relojoaria do Anuário Relógios e Canetas tem este ano a sua terceira edição e, tal como aconteceu no passado, é possível a qualquer pessoa votar para a categoria da Escolha do Público.

Há 21 relógios em competição (3 para cada uma das 7 categorias a concurso), mas a única que nos interessa é a dos "Relógios do Quotidiano", uma tradução portuguesa para o que no setor se costuma designar de daily driver: uma peça não muito cara que usamos no nosso dia-a-dia sem preocupações de maior.

Os requisitos desta categoria são apenas dois: o preço tem de estar abaixo dos 1000 euros e o movimento usado deverá ser mecânico.

A votação para a Escolha do Público pode ser feita aqui (em qualquer peça, e não necessariamente nestas três que aqui vos apresento). Estas são as três peças a concurso na categoria Relógios do Quotidiano: uma alemã, uma japonesa e uma suíça:

Iron Annie Cockpit 5156-6



Dos três selecionados para concorrer à categoria "Relógio do Quotidiano", a marca Iron Annie (com a qual os alemães da Pointtec estão a pouco-e-pouco a substituir a gama Junkers) é estreante nestas andanças.

O modelo proposto, a referência 5156-6 da família Cockpit, tem um sabor vintage, uma vez que o seu desenho segue de perto o dos relógios ditos de "navegador" usados pelos pilotos alemães na Segunda Guerra Mundial.

A principal características destes relógios consiste na escala horária usada no desenho do mostrador: os numerais mais importantes são os dos minutos/segundos, com a escala horária normal a ser relegada para uma posição concêntrica e com menos destaque.

Neste caso, temos direito a uma concessão moderna, com o relógio a incluir uma pequena janela de data na posição das 6 horas.

A execução é muito boa e inclui vidro de safira, fundo em vidro para observação do movimento suíço ETA 2824-2 e mostrador totalmente luminescente com leitura por contraste no escuro.

A caixa tem 42mm de diâmetro e resistência à água de 5 atmosferas. O PVP é de 499€.

Edit: Este foi o vencedor da categoria Relógio do Quotidiano".


Seiko Pressage Jardim Japonês SSA397J1




A Seiko foi shortlisted para esta categoria pela terceira vez consecutiva - um resultado justo face ao posicionamento da marca japonesa, que possui na sua extensa gama uma enorme quantidade de relógios B3.

Este modelo da sua gama Pressage Japanese Garden é particularmente bem conseguido e possui uma particularidade interessante: vem equipado com um movimento mecânico automático com indicador de reserva de marcha e data num sub-mostrador às 6h00.

Este indicador surge implementado por intermédio de uma escala em semicírculo entre as 11h00 e as 4h00 e é complementado por um ponteiro amarelo terminado em seta.

O desenho inclui mostrador de fundo verde, caixa em aço de 42mm com vidro de safira e fundo em vidro para observação do movimento. As posições horárias são ocupadas por índices aplicados. O resultado é um relógio extremamente elegante e que dará um excelente dress watch. O PVP oficial é um pouco puxado (790€) mas o resultado é francamente bom.

Edit: Este foi o vencedor da categoria Escolha do Público.



TISSOT SEASTAR 1000 POWERMATIC 80







O terceiro relógio desta lista é um Tissot de mergulho. Trata-se da referência T120.407.17.041.00, uma máquina baseada no movimento Powermatic 80 do grupo Swatch, com reserva de marcha para 80 horas.

Este é um modelo com proporções muito boas, não sendo excessivamente grande para um relógio deste tipo (43mm, incluindo o bisel rotativo unidirecional). A execução é típica da marca, com vidro de safira no mostrador e fundo em vidro para observação do movimento.

O mostrador, de fundo azul escuro, tem um desenho típico dos modelos de mergulho, com índices nas posições horárias. Estes, bem como os ponteiros, têm leitura no escuro através da aplicação de material luminescente. Uma janela de data às 6h00 (mas sem ocupar a posição do índice respetivo) completa o desenho.

A caixa deste relógio é resistente à água até 300 metros, o que - juntamente com o elevado nível de execução e prestígio da marca - justificam o preço de referência de 690€ (menos 100€ na Amazon Espanha).